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sábado, 29 de setembro de 2012

O JÔ SOARES QUER SABER: "ONDE ESTÁ O RACISMO?"



Tenho várias discordâncias com o senso comum. Uma delas é a ideia de impingir a Jô Soares o rótulo de figura notória inteligencia. Estou assistindo o programa dele e o entrevistado é um pesquisador sobre palavras da língua portuguesa que caíram em desuso. Já a tempos obs
ervo a ignorância de Jô acerca da questão racial. Na verdade, ele somente ressoa ideias de senso comum. Vide o comentário sobre a a música "o teu cabelo não nega" de Lamartine Barbo: "não sei onde as pessoas vêm racismo nessa letra". Mais uma vez emerge o vilão do "politicamente correto" atrapalhar tudo. Na verdade, no contexto em que a letra foi feita a noção de direitos humanos engatinhava bem como o capital político de reivindicação negra não tinha o mesmo acumulo de nossos dias. Não se trata de retirar a música do seu contexto histórico e taxá-la de racista pura e simplesmente. A análise que faço sobre a letra considera o contexto da época. Foi feita em tempos que racismo não era crime, a discriminação era abertamente praticada sem nenhuma prerrogativa de pena e o reclame do negro era emudecido, coagido a aceitar calado todas as ofensas que lhe eram impingidas. Não por acaso o ataque ao "politicamente correto" surge no momento em que os movimentos sociais e a luta por direitos se ampliaram, e isso incomoda aqueles que sempre puderam praticar o racismo nosso de cada dia e que hoje consideram um absurdo não poderem mais contar suas piadas nem fazer comentários estigmatizantes sem que alguém lhes coloque defronte com seus próprios preconceitos. Mas voltando a música, segue a minha análise sobre a letra: Diz a canção:

“O SEU CABELO não nega mulata
Porque és mulata na COR....
MAS como A COR NÃO PEGA, mulata
Mulata, eu QUERO O SEU AMOR...”

O cabelo e a cor são traços incontestáveis da ascendência negra-africana da mulata. O que para o locutor da canção parece não importar pois A COR NÃO PEGA, logo, conclui com entonação sexualizada “Mulata, eu QUERO O SEU AMOR”. Sinal de que a possibilidade de uma relação sexual com a mulata era possível de ocorrer sem maiores “prejuízos” pois ao fazer "amor" a sua cor não seria transferida para o amante (afinal, a cor não pega, né Lamartine). A reflexão a ser feita é: e se a cor pegasse? Ele ainda iria querer o "amor" da mulata? Larmatine viveu, cresceu e morreu em uma sociedade racista e a visão sexualizada da mulher negra ainda reverbera nos dias atuais onde reprise de novelas como "da cor do pecado" ainda apontam estereótipos machistas e racistas sobre as mulheres negras. Sim, Jô. O politicamente correto é chato! Principalmente para as pessoas que dissimulam uma suposta tolerância mas que na vida prática sempre puderam destilar sem freios seus preconceitos de maneira privada. Bom, se você se alegrava ao ouvir essa animada marchinha apenas acrescente ou ignore essa informação ao seu juízo de valores. Quanto ao Jô Soares faço votos para sua aposentadoria. Se o politicamente correto é chato, o seu programa então...

Um comentário:

Mumu Silva disse...

Essa leitura da letra de Lamartine Babo é perfeita. Realmente a conotação racista é muito evidente, claro que não para a galera do "deixa disso".

Enquanto deixarmos que pessoas como Jô Soares digam o que é e o que não é racismo, estaremos patinando na corrida.

Parabéns pelo texto e compartilhamento do raciocínio.

William Silva
www.obenedito.com